Livro 8 – A Floresta de Thalwynn
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Ah, Thalwynn… Ainda posso sentir o gosto de sua névoa em meus lábios e o som de suas folhas sussurrando segredos antigos. Vocês, filhos do presente, podem chamá-la de floresta, mas Thalwynn é mais do que um emaranhado de troncos e raízes para mim. Ela é a canção das primeiras lágrimas de Nammu, o eco de um tempo no qual os sonhos ainda não temiam as sombras.
Vi suas árvores se erguerem do solo como se despertassem de um longo sono, cada uma nascida de uma emoção esquecida, de um desejo não realizado. Elas não apenas vivem, elas lembram. Lembram vozes que se perderam, risadas que um dia ecoaram sob suas copas, passos de Andarilhos que ousaram atravessar seus domínios sem compreender que pisavam em memórias vivas. Algumas dessas lembranças são suaves, como a brisa que dança entre as folhas; outras… bem, outras são tempestades que devoram aqueles tolos o suficiente para tocar uma árvore sem permissão.
Mas Thalwynn não é somente um refúgio de sonhos. Ela pulsa, cheia de vida, em formas que vocês jamais poderiam imaginar. Seus habitantes não são meros animais, e sim fragmentos da própria essência onírica. Já vi cervos cujos galhos de cristal captam a luz da lua feito um espelho d’água, pássaros que carregam constelações inteiras em suas asas e felinos que deslizam entre sombras como se nunca tivessem pertencido a este mundo. Há beleza, sim… mas também há perigo. Pois quando o equilíbrio se quebra, essas criaturas, antes graciosas, tornam-se pesadelos.
No coração de Thalwynn, repousa um lago que não reflete corpos, mas almas. Já parei diante dele muitas vezes e encarei o que sou — não somente Mira, como todas as forças responsáveis por me moldar. Não recomendo essa experiência a qualquer um. Há verdades capazes de queimar mais do que o fogo, e algumas almas, frágeis como folhas secas, estilhaçam-se ao fitá-las.
E existe algo ainda mais curioso sobre essa floresta: seu tempo não é como o nosso. Caminhei por trilhas que pareciam durar uma eternidade e, quando saí, só alguns instantes tinham passado. Outras vezes, um simples piscar de olhos me roubou dias. Thalwynn não segue os caprichos das horas — ela se dobra ao fluxo dos sonhos, e os sonhos não foram feitos para serem contidos.
Entre os antigos, ainda corre uma lenda sobre uma Andarilha sem nome que enfrentou a floresta Thalwynn. Ela partiu sozinha em busca de um segredo enterrado nas entranhas da floresta, e nenhum rastro ficou para trás. Alguns acreditam que a mata a consumiu, que seu espírito se dissolveu entre as raízes e os galhos. Outros dizem que ela nunca se perdeu, apenas se tornou algo maior, invisível aos olhos impacientes dos mortais. Às vezes, quando os ventos dançam entre as árvores e as folhas murmuram em vozes esquecidas, sei que é ela. E sorrio.
Porque Thalwynn não é somente uma floresta. Ela é também uma lembrança viva, um Guardião sem rosto, um espelho do que fomos e do que ainda podemos ser. E aqueles que ousam entrar em seu domínio devem se lembrar de uma coisa: a floresta não esquece.
Ela nunca esquece.
Mira – Guardiã da Vida Selvagem.




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