Livro 6 – A queda das cidades irmãs
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Ainda consigo ver.
Fecho os olhos e volto àquele dia, nada desaparece.
Sundara foi a primeira.
E eu me lembro do calor. Não era o calor comum do deserto, aquele que faz a pele queimar devagar. Era diferente, mais pesado. O ar cheirava a pedra rachada, a couro queimado das barracas do mercado, a especiarias misturadas com pó. Eu tropeçava nos becos, e o chão parecia vibrar, como se a cidade inteira respirasse pela última vez.
Vi Niara na praça do oásis. Ela estava coberta de pó e sangue enquanto puxava pessoas para debaixo de pedras, que antes eram paredes. O lago no centro já fervia, parecia contaminado por dentro. As árvores estavam retorcidas, ficaram secas de repente. E ela… ela não parava. Sempre havia mais uma criança, mais uma mão a segurar. Quis ajudá-la, mas os Kabûs vieram. Eles saíam do nada: das sombras das arcadas, do próprio chão. Vultos com dentes e olhos onde não deviam existir. Não dava tempo de contar quantos eram.
Então foi a vez de Zephyria, a cidade suspensa.
Eu me lembro do som das passarelas estalando antes de cair no desfiladeiro. Borko estava na ponte central, sozinho. Defendia o último caminho para os bairros flutuantes. O vento, nosso aliado constante, era diferente naquele momento: uivava como se chorasse, carregava vidro quebrado, areia, estilhaços de madeira.
Vi quando uma das torres caiu. Vi também quando o guerreiro segurou uma criança e a lançou para um lugar seguro. E depois… nada. Só a ponte cedendo, o vidro se partindo, o corpo desaparecendo na correnteza de vento e poeira.
Não havia corpos. Nem de Niara, nem de Borko. Só rastros.
Na areia de Sundara, garras fundas marcavam o chão, sulcos sem fim aparente. No vidro de Zephyria, enxergavam-se rachaduras no formato de relâmpago. E havia pedaços dos Kabûs espalhados: braços, rostos incompletos, bocas que ainda se mexiam mesmo sem corpo. Alguns se desfaziam quando eu chegava perto; outros simplesmente ficavam ali, contorcendo-se até sumir.
Andei pelas ruas em silêncio após a destruição. As fontes estavam secas, a água tinha virado lama escura. As torres eólicas caídas formavam cruzes no chão. Em cada canto, existiam sinais da tentativa de contenção: pedras fundidas em vidro, símbolos queimados, fissuras que ainda brilhavam fraco, como se guardassem restos da batalha.
Mas o pior não foi o que vi. Foi o que senti.
O Devorador ainda estava ali, mesmo preso em Irkalla. Seu poder vazava pelas brechas, encharcava o ar, grudava na pele. Era igual a andar dentro de um pesadelo sem conseguir acordar: não importava quão longe eu fosse, a sensação não desaparecia.
Sundara e Zephyria não eram somente cidades. Eram parte de nós. E estavam em ruínas.
Tentei respirar fundo, contudo o ar estava pesado demais. O gosto de cinza fazia a garganta arder. A cada passo, lembrava-me dos mercados cheios, dos jardins suspensos, do som das crianças correndo entre as fontes. Agora só encontrava silêncio.
Não encontrei Niara. Nem Borko. Apenas os lugares onde estiveram, as marcas da luta. Assim, fiquei com a sensação estranha de que ambos continuavam ali; não em corpo, e sim em gravações nas pedras que defenderam até o último instante.
Voltei sozinha.
E aprendi uma lição: sobreviver não era experimentar alívio.
Era carregar tudo isso dentro de si mesmo, todos os dias.
Ekhaya nunca voltaria a ser a mesma.
Nem eu.
Liora – Guardiã de Meru.




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