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Livro 4 – O destino dos condenados

  • há 4 dias
  • 3 min de leitura

O Limbo não era somente uma prisão, era um exílio. Quando Nammu, em um ato de severidade divina, selou Kushim entre mundos, ela não só o arrancou de Ekhaya e da Terra, mas também de si mesma. O antigo Andarilho gritou ao ser lançado no vazio, sua voz reverberando como trovões perdidos em um silêncio absoluto. Ali ele estava sozinho, cercado por uma escuridão que era ausência de luz, sim, mas era antes a manifestação de tudo o que ele tinha perdido.

Kushim não odiava a força criadora no início. Ele lamentava. Questionava. Suplicava. “Por quê?” Repetia, como se o Limbo pudesse responder. O homem refletia sobre o crime cometido: a morte de Bari, o amigo que tentara salvá-lo de si mesmo. Havia culpa em seu coração, mas a prisão esmagava qualquer lampejo de redenção. Com isso, o tempo, sem medida ou sentido naquele espaço, transformou-o lentamente.

Durante os séculos, a voz do ex-pescador silenciou. Ele se sentava na vastidão sombria como quem espera por algo — uma palavra, um sinal, talvez perdão. Nada vinha. Nammu o abandonara ali, ignorando suas súplicas e suas dores. O ressentimento cresceu feito raiz envenenada, enroscou-se em sua alma. Para ele, a criadora tinha roubado sua chance de reparação, remissão.

Dessa maneira, a fome surgiu como um vazio em seu peito, uma ausência que crescia a cada momento de isolamento. No Limbo, o exilado descobriu que os ecos de sonhos e pesadelos alcançavam aquele espaço. Frágeis no início, esses fragmentos de alma humana flutuavam para perto, igual a borboletas atraídas por uma chama incompreensível. Kushim, desesperado, alimentou-se do primeiro que encontrou por instinto.

Foi um choque. O sonho era vívido, um pedaço de esperança humana. Então ele se sentiu vivo por um breve instante, como se um calor há muito apagado fosse reacendido em sua essência. Mas tão rápida quanto veio, a sensação se dissipou e a fome voltou, mais voraz. Assim, o prisioneiro devorou outra matéria onírica, e depois mais uma. Cada sonho ou pesadelo consumido o sustentava por um instante, no entanto o preço era alto: com cada fatia roubada, ele se distanciava mais do homem que fora.

Os milênios passaram, e Kushim deixou de ser Kushim. Esqueceu o som de sua própria voz, o rosto de sua irmã, o toque das ondas do mar. Tudo o que restava era a fome. Quando olhou para si mesmo, viu que não era mais humano. Sua forma tinha se alongado, os chifres tortos emergiram como marcas da corrupção e os mantos esfarrapados que o cobriam ondulavam igual à fumaça de um incêndio eterno.

Enquanto o antigo Andarilho se transformava, o ódio por Nammu se fixava. Ele acreditava que, se tivesse sido guiado, se tivesse sido ajudado, poderia ter encontrado o caminho de volta. Mas a criadora o selara, deixando-o sozinho, mergulhado em suas próprias trevas.

Aí o ex-pescador começou a caçar sonhos e pesadelos humanos não só para se alimentar, mas também para encontrar fraquezas nos reinos construídos por ela. Cada devoração era um grito de vingança, uma tentativa de drenar as criações da força e reivindicar algum controle sobre o que ela tinha moldado.

Com o tempo, até mesmo seu ódio por Nammu começou a se desfazer. Ele não se lembrava mais do rosto dela, apenas do sentimento de traição. Os ecos de Kushim se perderam de modo semelhante a folhas levadas por uma tempestade interminável. O ser estava ciente de que havia sido algo mais dentro de si, porém a memória era um vislumbre distante, impossível de alcançar.

Agora ele existia somente como um espectro de fome, um predador das fronteiras de Ekhaya e da Terra. Sua presença drenava o calor e a cor de tudo ao redor e deixava só o vazio. Os viajantes que ousavam chegar perto sussurravam histórias de uma figura alta e esguia, com olhos inexistentes capazes de atravessar a alma e mãos alongadas como garras, feitas para roubar mais do que carne: elas tiravam a própria essência de quem os seres humanos eram.

Kushim estava perdido para sempre.

O Devorador dos Sonhos era tudo o que restava.


Primordial Raful.


 
 
 

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Palloma e Silvio - 080_edited.jpg

Olá, que bom ver você por aqui!

Apaixonado por boas histórias desde a adolescência, sou um escritor em constante busca por mundos mágicos e personagens inesquecíveis. Inspirado pela literatura fantástica, pela natureza e por minhas próprias vivências, trago à tona narrativas que misturam emoção, reflexão e aventura.

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