top of page
Buscar

Livro 2 – A queda de Kushim

  • há 5 horas
  • 3 min de leitura

Nos vastos horizontes de Ekhaya, onde sonho e realidade dançam emaranhados, existem histórias que não pertencem somente aos humanos, mas também à essência deste mundo.

Histórias como a tragédia de Kushim, um dos poucos escolhidos de Nammu. Sua ganância o transformou no Devorador dos Sonhos, uma entidade que ainda hoje assombra as fronteiras do nosso reino.

Kushim era um homem simples da Terra, um pescador que vivia das águas e do sustento oferecidos por elas. Não buscava grandeza, mas carregava um espírito inquieto que o tornava receptivo às dádivas dos deuses. A criadora do reino dos sonhos, em sua sabedoria insondável, presenteou-o com uma fração de sua essência e a capacidade de acessar Ekhaya.

Quando o homem chegou ao nosso mundo pela primeira vez, era um viajante curioso, encantado com as maravilhas do lugar. Como muitos, encontrou aqui um abrigo da rigidez terrena, uma liberdade que preenchia os espaços vazios de sua alma. Mas, para ele, essa liberdade se tornou uma armadilha.

A cada visita, Kushim se afastava mais de suas obrigações no mundo mortal, e foi sua família, que dependia dele, quem sofreu as consequências. A morte do pai foi o golpe mais duro: a ausência do patriarca nesse momento crucial destruiu os laços que o uniam aos entes queridos. Sua irmã mais nova, Lira, tentou manter a conexão, no entanto o comportamento do pescador era cada vez mais errático e distante.

Quando chegou o casamento de Lira com Bari, outro escolhido de Nammu, parecia haver uma chance de reconciliação. No entanto, Kushim, consumido pela obsessão com Ekhaya, negligenciou o chamado. Isso não só destruiu a esperança da irmã, mas também despertou a indignação do noivo.

Bari, embora fosse um homem forte de coração, era movido por um senso de dever que o tornava incapaz de aceitar a negligência do cunhado. Ele veio ao reino com o propósito de confrontar seu amigo e levá-lo de volta ao mundo mortal. Nesse encontro, a tragédia se consumou.

Não é comum em nosso território que os viajantes tragam sua violência terrena, mas Kushim já não era o mesmo homem. Alimentado por sua conexão com Ekhaya, estava moldado pelo próprio tecido do reino, algo que o outro não conseguiria igualar. Na luta de ambos, o pescador cometeu o ato impensável: tirou a vida do companheiro.

A morte de Bari foi um marco no mundo dos sonhos. O solo onde ele tombou escureceu, virou um lembrete eterno de que até mesmo a beleza de nosso universo pode ser manchada pela ambição e pela ira. Kushim, tomado de medo e culpa, fugiu de Ekhaya e da Terra. Contudo, sua queda estava apenas no começo.

Ele se tornou um nômade, tanto no mundo mortal quanto em nosso reino. Cada vez mais isolado, descobriu que poderia absorver as essências dos outros escolhidos com o intuito de fortalecer sua conexão com Ekhaya e prolongar sua permanência aqui. Ao todo, dezessete viajantes foram ceifados por suas mãos.

Assim, o antigo Andarilho deixou de ser um homem; transformou-se em uma sombra, uma entidade consumida por uma fome insaciável. Apesar disso, houve um momento em que ele quase encontrou paz, quando um casal de caçadores mortais o achou em um estado de fraqueza e o cuidou, sem saber quem era. Por semanas, o homem viveu em harmonia com os dois, longe do reino dos sonhos.

Todavia, a saúde debilitada o forçou a retornar. Desesperado para estender sua vida, Kushim começou a caçar as criaturas de nosso mundo, perturbando o equilíbrio. Foi nesse ponto que ele virou o que hoje conhecemos como Devorador dos Sonhos, um ser irreconhecível, movido somente pela sede de poder e pela fuga de sua essência mortal.

A história do ex-pescador é contada como um alerta, tanto para os viajantes quanto para nós, habitantes de Ekhaya. Ela não nos deixa esquecer: até mesmo os dons divinos podem se tornar maldições nas mãos erradas.

O destino de Kushim é uma advertência: o desejo por mais — seja poder, liberdade ou imortalidade — pode nos levar a destruir tudo o que é sagrado.

Hoje, o nome do Devorador dos Sonhos é sussurrado nas bordas do mundo dos sonhos, um eco distante do homem que ele um dia foi. Como Guardião das Histórias, registro esta memória para sempre lembrarmos o preço de permitir que nossas sombras nos consumam.


Nazu – Guardião de Shambhala.


 
 
 

Comentários


Palloma e Silvio - 080_edited.jpg

Olá, que bom ver você por aqui!

Apaixonado por boas histórias desde a adolescência, sou um escritor em constante busca por mundos mágicos e personagens inesquecíveis. Inspirado pela literatura fantástica, pela natureza e por minhas próprias vivências, trago à tona narrativas que misturam emoção, reflexão e aventura.

Fique por dentro de todos os posts

Obrigado por assinar!

  • Amazon
  • Instagram
  • TikTok
bottom of page