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Onde nascem os sonhos

  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Na alvorada do cosmos, quando as estrelas ainda estavam se formando e o abismo que chamamos de espaço era um véu insondável de possibilidades, uma força surgiu. Não era uma força comum, e sim um poder ancestral, nascido a partir da própria essência do vazio. Ele não conhecia limites nem forma, mas era consciente. E em sua consciência, algo profundo e imenso habitava — um anseio.

Um anseio por criar.

Era uma força primitiva, porém não onisciente. Ela não sabia tudo, apesar de sentir tudo. Seu poder era quase infinito, capaz de moldar mundos e gerar vidas. Contudo, mesmo em sua imensidão, ela estava sozinha. Criava com um desejo inquieto, no entanto a solidão a acompanhava. Seus filhos eram grandes como planetas, e suas criaturas, abstratas e etéreas, não podiam compartilhar da experiência da criação. Faltava-lhe algo.

Por milênios, essa força viajou pelo vazio em busca de uma alma capaz de compreender seu dom, uma consciência semelhante à sua. Todavia, encontrou apenas o silêncio.

Até que, num momento fugaz, o olhar da força se voltou para a Terra. Aqui, entre a poeira das estrelas e o brilho efêmero das luzes terrestres, ela achou os humanos. Frágeis, pequenos e intrigantes ao mesmo tempo. Eram criaturas de carne e espírito, limitadas por suas formas, entretanto possuídas por uma chama tão intensa quanto a da própria Força.

Sonhadores. Seres que, ao dormir, pareciam deixar para trás o peso da carne e dançar no vasto mistério do cosmos, como se suas almas fossem pássaros a vagar pelos céus da eternidade.

Observando-os, Nammu se apaixonou por aquilo que não entendia. Ela se entregou ao enigma de sua existência, à capacidade de se tornar tanto matéria quanto sonho, de ser e não ser, sempre fugindo das fronteiras do que poderia controlar.

E então, decidiu ir além.

Nammu fez aquilo que só um criador poderia fazer: o impossível. Construiu um lugar, um reino, onde os sonhos poderiam viver sem as amarras do corpo. Onde a alma poderia se desprender e ser ela mesma sem limites, sem gravidade, sem o peso da carne.

Ela o chamou de Ekhaya — um reflexo do mundo, mas também uma extensão dele, onde as leis da natureza não tinham domínio. Um lugar de possibilidades infinitas, no qual a mente humana poderia voar, nadar em rios de luz, escalar montanhas que flutuavam no ar e caminhar sobre as águas. Nada era impossível, porque Ekhaya era tecida com o fio das vontades mais puras.

Mas lá as coisas não eram como na Terra. As criaturas que Nammu criou não se pareciam com os humanos. Pelo contrário, eram seres magníficos, fantásticos: dragões que respiravam sonhos, sereias que cantavam canções e moldavam a realidade, minotauros que guardavam os segredos das profundezas do tempo. Eles eram os Primordiais, filhos diretos da força geradora, e sua missão era proteger o reino de qualquer ameaça, mantendo o equilíbrio e a independência oferecida por ele.

Ekhaya era, de muitas maneiras, um espelho de uma Terra que poderia ter sido. No entanto, em sua criação, Nammu rompeu com os limites do conhecido. Quando a força primordial enfim completou o mundo, convidou os humanos mais próximos de seu coração — aqueles que tocara com seus mistérios — para caminharem em sua terra dos sonhos. E eles foram.

Atravessaram o limiar do sonho e acordaram no novo território, maravilhados com sua liberdade, com as cores impossíveis que seu planeta natal não conhecia, com a música do vento e a dança das estrelas. Mas esse presente do mundo dos sonhos, sempre era efêmero. Quando o amanhecer chegava e os corpos humanos despertavam, o mundo de Ekhaya desaparecia como a névoa da manhã. E a cada retorno, uma saudade ardente nascia nos corações daqueles que tinha visto o que seus olhos não podiam mais alcançar.

A força viu, então, a tristeza crescente nos olhos dos humanos. Como ela não possuía as limitações da carne, não reconhecia a dor da separação. Com o tempo, porém, percebeu que os visitantes não desejavam voltar. Ansiavam por Ekhaya como se ela fosse a verdadeira casa, e não a Terra. Sentiam a ausência daquele reino tão vívido, que sempre parecia escapar por entre os dedos ao amanhecer.

Foi então que Nammu, em um gesto de amor e benevolência, tomou uma decisão. Ela fragmentou uma parte de seu poder — algo minúsculo, mas potente — e o entregou aos sumérios, aqueles que a honraram como deusa do seu panteão. Com esse presente, os terráqueos se tornaram os primeiros Andarilhos dos Sonhos, capazes de ficar no reino, sem a necessidade de acordar.

No entanto, como toda dádiva divina, o poder tinha seu preço. Os Andarilhos não eram mais somente homens e mulheres da Terra; eram também filhos de Ekhaya, vagando entre os dois mundos, com a responsabilidade de proteger o equilíbrio entre ambos.

Assim, o destino da humanidade foi entrelaçado para sempre ao destino dos sonhos.

E por mais que Ekhaya fosse um mundo de liberdade e beleza, os Andarilhos sabiam: por trás da grandiosidade do reino da deusa, havia um mistério profundo, uma força que, embora estivesse em constante criação, nunca deixaria de ser incompreendida.


Kushim, o primeiro Andarilho.



 
 
 

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Palloma e Silvio - 080_edited.jpg

Olá, que bom ver você por aqui!

Apaixonado por boas histórias desde a adolescência, sou um escritor em constante busca por mundos mágicos e personagens inesquecíveis. Inspirado pela literatura fantástica, pela natureza e por minhas próprias vivências, trago à tona narrativas que misturam emoção, reflexão e aventura.

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