A Delicadeza do Risco
- 23 de fev.
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Atualizado: 15 de mar.

Giovanna e Camila dividiam o mesmo teto havia dois anos, mas o que realmente compartilhavam era um idioma. Um código feito de piadas internas, provocações infantis e apelidos que não fariam sentido fora daquela bolha. O apartamento vibrava com risadas e tinha o conforto de um moletom velho. Ali não havia esforço. O amor se manifestava na minúcia: a disputa pelo último pedaço de pizza, a reclamação da toalha úmida sobre a cama, o comentário ácido sobre a vida alheia como quem acompanha uma série longa e viciante.
Paula e Fabi chegaram numa sexta-feira abafada, trazendo mochilas volumosas e aquela euforia específica de quem está de férias da própria vida. Eram um casal recente, ainda no brilho do início. Tocavam-se por instinto, gestos automáticos denunciando o entusiasmo. As férias em São Paulo tinham cheiro de novidade e de noites sem compromisso com o amanhã.
A convivência engrenou rápido. Jantar improvisado, vinho simples em copos desparelhados, histórias atravessadas sobre ex-namoradas e vexames passados. Giovanna se pegou observando Fabi além da conta. Dizia a si mesma que estava só observando, como quem analisa uma situação alheia. Nada além disso. Paula, por outro lado, notava Camila com uma atenção diferente. Havia nela uma provocação elegante, um domínio do próprio efeito, como quem escolhe cada palavra com paciência de predador.
Na segunda noite, a chuva bateu constante nas janelas, isolando o apartamento localizado no Butantã, do frio e do resto do mundo. A televisão exibia Ilha da Tentação, aquele tipo de reality que vende caos emocional embalado em música insinuante, feita para empurrar limites. A tequila surgiu sem cerimônia. Um copo puxou o outro, e o clima foi afrouxando, ficando confessional.
— Vocês viram isso? — Fabi apontou para a TV, rindo. — É surreal. Todo casal que mora junto jura que se conhece… e vive escondendo cadáver no armário.
O riso veio fácil, mas o meio sorriso de Fabi durou tempo suficiente para incomodar. O silêncio que se seguiu não pesou. Ele se esticou. Atento.
— Lá vem você… — Camila respondeu, girando o gelo no copo. — Hoje não, Fabi.
— Hoje o quê? — Giovanna atravessou a conversa, forçando a leveza. — Sessão filosofia de boteco? Dispenso.
Risadas. Um alívio curto.
Fabi deu de ombros. Recostou-se no sofá, cruzando as pernas. — Curiosidade não é acusação — disse, plácida. — Às vezes é só… jogo.
Paula inclinou a cabeça, avaliando o grupo como quem escolhe uma carta. — Jogo, então. Verdade ou consequência. Camila e Giovanna trocaram um olhar automático. Hesitaram, mas o álcool já decidia por elas.
— Verdade — Anunciou Giovanna — Quem aqui já stalkeou ex?
— Todas. — Falaram em uníssono — Próxima. — Gritou, Paula.
O sofá parecia encolher a cada rodada. Pernas se tocavam, copos esvaziavam. Em algum momento, as perguntas deixaram de ser inofensivas e começaram a mirar na pele.
— Você já pensou em alguém que não devia? — Paula disparou para Giovanna.
— Pensar não é crime. — A resposta veio com um sorriso que desmentia a inocência.
Paula se inclinou para frente, invadindo o espaço pessoal com os olhos brilhando. — Tá… e algo mais ousado?
Camila sentiu um arrepio na nuca. Levantou-se antes de responder. — Já volto.
*
O quarto estava escuro. A gaveta, esquecida. A caixa pequena parecia pesar toneladas quando ela voltou para a sala.
— Você só pode estar brincando — Giovanna murmurou, o riso nervoso escapando.
— Não é nada explícito — Camila colocou a caixa sobre a mesa de centro deixando à mostra uma diversidade de brinquedos sexuais. — Mas muda a temperatura.
E mudou.
As rodadas seguintes tiveram menos barulho e mais pausas. Silêncios que ninguém se apressava em preencher. Até Paula virar para Giovanna.
— Consequência. Usa esse. Um pequeno plugue de silicone cor de rosa
O coração de Giovanna disparou. O objeto em si era irrelevante, mas o que a prendeu foi Camila. O jeito como ela a olhava — surpresa, sim, mas também inteira. Sem hesitação.
— Eu uso — a voz de Giovanna saiu firme, apesar do tremor interno. — Mas não isso. — Apontou para a caixa com desdém. — Se for pra entrar no jogo… a gente faz direito. Zero quilômetro. Vamos juntas num sex shop.
O silêncio caiu seco. Depois, a gargalhada coletiva estourou a tensão. Daquelas altas, descontroladas, que denunciam que a linha foi cruzada e o retorno não é mais uma opção.
A última dose desceu queimando.
— A decisões questionáveis — Camila brindou.
— Às péssimas ideias — Giovanna completou.
***
O Uber foi um borrão de luzes da cidade riscando as janelas e risadas desconexas. O carro parecia minúsculo para a densidade de insinuações que circulavam ali dentro. Giovanna ria daquele jeito aberto de quem já perdeu o filtro. Paula narrava a cidade lá fora com uma malícia distorcida. Fabi testava limites com piadas que já não eram piadas. E Camila, no canto, sorria devagar, sentindo um calor que não vinha do motor. O motorista desistiu de entender na terceira tentativa de conversa e focou na estrada. Nenhuma delas teve piedade.
A entrada no sex shop foi como atravessar um portal. Luz baixa, cheiro adocicado, prateleiras organizadas como promessas.
— Gente… isso é praticamente figurino de carnaval proibido — Paula ergueu uma fantasia com a ponta dos dedos. — Quem usa isso sem pedir desculpa depois?
— Eu queria entender a logística — Giovanna inclinou a cabeça, a visão levemente turva. — Onde entra a dignidade?
— Dignidade é um conceito diurno — Fabi riu, alto. — Esse tecido não foi feito pra sobreviver à luz do sol.
Na prateleira de lubrificantes, Paula leu um rótulo em voz alta. — “Sensação prolongada”. Prolongada quanto?
— Depende do comprometimento emocional — Giovanna devolveu, séria. — Ou da hidratação.
— Nerd — Fabi provocou.
Nos consolos, o tom mudou. O ar ficou denso.
— Freud explicaria em cinco minutos — Paula comparou tamanhos.
— Freud explicaria tudo errado — Camila cruzou os braços, observando.
Paula se aproximou de Giovanna. Sem tocar, mas invadindo a aura dela. — Esse formato combina com você. Tem… personalidade.
— Você anda me observando muito — Giovanna sustentou o olhar, o álcool lhe dando coragem.
— Difícil não observar o que se oferece.
Camila pigarreou, ajustando a temperatura da sala. — Ok, vamos respirar. Ainda estamos na fase da vitrine. Os casais se dispersaram sem aviso. Camila e Giovanna ficaram num canto mais afastado tentando absorver aquelas últimas interações.
— Você reparou? — Giovanna sussurrou.
— Que ninguém combinou nada e todo mundo se afastou? — Camila não tirava os olhos do corredor. — Reparei.
— A Fabi tá diferente. Mais solta.
— A Paula também. Ela provoca testando o terreno.
— Nada aqui é aleatório — Giovanna apoiou-se na prateleira. — Só não sei quem caça quem.
— Talvez todo mundo esteja caçando. Pela primeira vez sem fingir que não.
— E o que você acha disso?
— Ainda não sei o que achar.
Elas se afastaram sem encerrar o assunto, atravessando a loja com aquela atenção que antecede um erro.
Quando reencontraram Paula e Fabi, o susto foi mútuo. As duas riam baixo, testando acessórios por cima da roupa, uma intimidade de descoberta adolescente. O flagra gerou um silêncio elétrico e olhares lascivos de todas as partes.
No balcão, folhetos de festas. A ideia apareceu sem pedir licença — uma casa de swing. Só para olhar. Só para não deixar a noite morrer.
Ninguém precisou insistir. O acordo já estava feito no olhar.
***
A música era um baque no peito, grave e contínuo. Luzes estroboscópicas fatiavam os movimentos em quadros isolados. O labirinto de luzes baixas cheirava a perfume caro e suor.
Flash. Fabi e Giovanna próximas. O olhar de Fabi era um abismo. Giovanna tentou catalogar o sentimento, mas o vocabulário falhou. O pensamento virou instinto.
Flash. O toque na cintura. Um disparo de adrenalina. A boca de Fabi encontrou a de Giovanna. Não houve metáfora. Havia língua, gosto de gin, urgência. Giovanna recuou, atordoada, os seios rígidos contra o tecido fino. Era invasão ou convite? A mão de alguém subiu pela sua coxa. Quem? Não importava.
Flash. Paula e Camila na pista. Corpos colados numa geometria impossível. O olhar delas era uma conversa privada em meio ao caos. Quadris batendo no ritmo, criando um campo magnético que isolava o resto da boate.
A partir dali, a memória virou fragmento.
O grupo se reorganizou por gravidade. Fabi voltou para Paula? Giovanna para Camila? Parecia que sim, mas o território já estava contaminado. O retorno ao "seguro" não apagou a brasa; apenas a escondeu. Beijos roubados. Mãos bobas. Sussurros no ouvido que arrepiavam a espinha.
— A gente podia voltar pro apartamento.
A frase de Giovanna soou como um comando.
— Faz sentido. Lá é mais… confortável — Fabi sorriu, o batom borrado.
Camila viu seu reflexo numa vitrine escura. O rosto estava desperto. Vivo.
— Vamos.
A rua estava silenciosa, mas o barulho dentro da cabeça delas era ensurdecedor. O prédio surgiu como um farol. A noite não tinha acabado; ela só tinha mudado de cenário.
***
O apartamento parecia ter outra atmosfera. O corredor era estreito, solene.
Cada casal foi para um quarto. Um reflexo condicionado de decência.
No quarto, Giovanna sentou na cama, o quarto girando levemente.
— Até onde isso vai? — a voz saiu trêmula.
Camila sentou ao lado. Ombro com ombro. Calor.
— Não sei. E isso é a parte estranha. Olhar pro abismo e não sentir vertigem. Ver a relação esticar e não rasgar.
— Você está tranquila demais. É perigoso.
— É risco calculado, Gi. Nada no automático.
— Se eu fosse casar amanhã, queria uma despedida assim. Bagunçada. Sem roteiro.
Camila virou-se, encarando-a. — Sem passar por cima de nada. Se acontecer, tem que fazer sentido pra nós. Não pra história ficar boa depois.
Levantaram-se para buscar água. Esperavam silêncio.
Abriram a porta.
O som que veio da sala deixou claro que a água ficaria para depois.
***
Paula e Fabi no sofá. O beijo não era de filme; era de fome.
Ao perceberem a plateia, Paula se afastou devagar, vestindo a camiseta com uma lentidão deliberada. Fabi passou a língua nos lábios.
— Vocês demoraram.
Camila riu, um som seco. Aproximou-se, o cheiro de sexo e álcool no ar.
— Saiu do controle? — Giovanna perguntou.
— Tinha controle? — Paula ergueu uma sobrancelha.
— O plano mudou — Fabi decretou.
Copos se encheram novamente. Ninguém brindou.
O sofá ficou pequeno. Joelhos se roçaram. A eletricidade estática era quase visível. Uma mão no ombro. Um sorriso torto.
A sequência seguinte foi um borrão de sentidos.
A boca de Fabi em Giovanna. Onde estavam Paula e Camila? Sumiram do mapa mental. Só existia aquele toque, aquela novidade. A estranheza deliciosa de uma pele que não se conhece.
Camila inclinando-se para Paula. O beijo delas tinha textura de intenção, não de curiosidade.
O apartamento encolheu. Roupas se tornaram obstáculos inúteis. Um zíper, um botão, o som de tecido caindo no chão.
Giovanna teve um lampejo de lucidez — isso vai dar problema — que durou meio segundo antes de ser engolido pelo prazer. Fabi de joelhos entre as pernas dela. O toque firme.
— Está difícil disfarçar — o sussurro de Fabi no ouvido foi o gatilho.
O gemido de Giovanna ecoou alto, sem vergonha. — Quarto. Agora.
O trajeto foi um tropeço de corpos. A cama grande, desarrumada, recebeu o peso de quatro histórias colidindo.
A partir daí, a geometria perdeu o sentido.
Quem beijava quem?
Fabi estava sobre Giovanna, explorando o pescoço, as mãos quentes afastando o que restava de tecido. O ar frio do quarto contrastava com a febre da pele.
Ao lado, ou talvez junto, ou talvez misturado, Paula e Camila se moviam numa cadência urgente. Os sons se sobrepunham. Gemidos, respiração curta, o som da pele contra a pele.
Vertigem.
Fabi olhou nos olhos de Giovanna. — Deixa eu sentir você.
Não foi pergunta. O corpo de Giovanna arqueou, respondendo ao toque que veio preciso, devastador. Os lençóis se embolaram nos dedos.
No meio da névoa alcoólica e sensorial, Giovanna estendeu a mão para o lado. Encontrou pele. Era Paula? Era Camila? Puxou o corpo para perto. Um beijo triplo, ou duplo, ou tudo ao mesmo tempo. As mãos de Giovanna guiaram as de Paula (ou seriam as de Fabi?) até o limite.
O clímax não foi individual. Foi uma onda que quebrou sobre todas, misturando identidades, suor e a certeza absoluta de que nenhuma delas sairia dali como havia entrado.
Quando a onda recuou, sobrou o silêncio ofegante.
Alguém — a visão periférica de Giovanna dizia que era Paula — acariciava a barriga de Camila. Fabi estava com o rosto enterrado no travesseiro, rindo baixo.
— A noite ainda está começando — alguém murmurou. A voz parecia vir de dentro da própria cabeça de Giovanna.
E ninguém duvidou. Pensar ficaria para depois. Agora era só sentir.
***
A luz da manhã foi violenta. Entrou pela janela sem pedir licença, expondo a bagunça de roupas, copos e corpos.
Giovanna acordou com a boca seca e a cabeça pesada. Camila dormia um sono de pedra ao lado. No colchão extra puxado para o chão, Paula respirava fundo. Fabi olhava para o teto, contando fissuras no gesso.
O café foi feito em marcha lenta. O barulho da cafeteira parecia uma britadeira.
Trocaram olhares rápidos. Um sorriso fraco. Ninguém teve coragem — ou energia — para discursar. Não havia "DR" para fazer. Havia apenas a constatação física de que algo tinha saído do eixo.
O mundo lá fora continuava igual. Elas, não.
***
O aeroporto tinha cheiro de café requentado e pressa. Gente demais, barulho demais, normalidade demais.
Caminhavam juntas, mas a formação tinha mudado sutilmente. Fabi um passo à frente, puxando a mala com raiva da ressaca. Paula atrás, observando Giovanna e Camila orbitando uma a outra, mas com uma gravidade diferente.
Na fila do check-in, a noite anterior começou a perder a textura de realidade e virar memória granulada.
— Café? — Paula ofereceu. Hábito.
— Já volto — Giovanna sumiu para o banheiro sem explicar.
Sentaram numa mesa de fórmica fria.
— Dormiram bem? — a pergunta flutuou no ar, ridícula.
Respostas monossilábicas. O café queimou a língua de Paula. Ela praguejou e riu sozinha. O riso morreu rápido.
O assunto rodeou o elefante na sala sem nunca tocá-lo. Falaram do trânsito, do voo, da série da TV. Conversa de sobrevivência. Giovanna evitava olhar nos olhos de Camila. Não por culpa, mas por excesso de informação. Não cabia tudo aquilo num domingo de manhã.
O embarque foi anunciado. Prático. Metálico.
Abraços. Paula abraçou Camila por tempo demais. Giovanna e Fabi se abraçaram com a estranheza de quem compartilhou o inconfessável horas antes.
— Se cuidem.
— Boa viagem.
Foi o suficiente.
Quando Camila e Giovanna sumiram no corredor, o aeroporto voltou a ser só um lugar de passagem.
Paula ficou parada, segurando o casaco. Fabi digitava e apagava uma mensagem.
— Vamos? — Fabi guardou o celular e seguiu em direção ao embarque de mãos dadas com a sua namorada.
***
Do lado de fora, o ar estava mais frio do que o previsto. Chamaram o Uber no automático, como quem já fez aquele trajeto mil vezes. O carro chegou rápido. Camila entrou primeiro. Giovanna veio logo atrás, fechando a porta com o cuidado habitual.
A cidade correu do lado de fora, conhecida o suficiente para ser ignorada. Giovanna puxou o cinto de Camila quando percebeu que ela tinha esquecido. — Você tá bem? — perguntou.
— Tô. — Camila respirou fundo. — A gente tá bem.
Giovanna assentiu com aquele sorriso frouxo que sua esposa amava.
— Confesso que… — Camila prosseguiu, depois parou, procurando a palavra certa. — Eu gostei.
Giovanna riu baixo, cúmplice. — Eu também.
Camila virou o rosto, finalmente olhando pra ela. O sorriso veio fácil. O mesmo de sempre, só com uma camada nova por cima. O celular de Giovanna vibrou. Ela nem checou. Deixou a tela apagada e esticou a mão. Camila encaixou os dedos sem pensar, como fazia há anos.
O Uber dobrou a esquina da rua delas. O prédio estava logo ali, intacto, esperando. Nada tinha sido quebrado. Nada precisava ser consertado. Mas alguma coisa tinha sido descoberta. O mapa do que elas eram tinha acabado de ficar maior. E nenhuma das duas estava com pressa de voltar para as fronteiras antigas.




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